Pelo outro ou por mim? – 4.ª parte

Na semana passada aconteceu uma situação muito gira – aliás, duas, mas deixo uma delas para a próxima – que me parece servir como nota introdutória para dar continuidade a esta reflexão.

Quando alcancei aquele momento em que dei o texto por terminado, deparei-me com uma citação que tinha guardado num documento, só que já não me lembrava que o tinha feito. Guardei-a com a intenção de que ela me pudesse servir de lembrete, do género: “este é um tema sobre o qual ainda vou escrever”. E o giro é que primeiro escrevi sobre o tema e só depois encontrei o dito “lembrete” que, por sinal, resume tudo o que tenho vindo a escrever numa só frase:

 “O Egoísmo não está em viver como se deseja viver, o egoísmo está em pedir aos outros que vivam como você deseja viver.”

Oscar Wilde

 Este singelo conjunto de palavras é o suficiente para expor a diferença entre aquilo que é exercer o egoísmo no Caminho do Amor ou no caminho do medo. A forma como o fazemos neste último, vai continuar a ser a base de desenvolvimento também para este texto.

Creio que é algo que vale a pena a fazer porque, para conseguirmos abrir espaço para o novo – exercer com mais coragem e leveza o egoísmo dentro do Caminho do Amor – precisamos deixar ir velhos paradigmas. E quando conseguimos obter uma compreensão mais ampla sobre o modo como eles nos limitam, torna-se mais fácil para nós conseguirmo-nos soltar deles.

Posto isto, importa que fiquemos recetivos a eventuais evidências que nos permitam sinalizar se estamos a ser egoístas dentro do caminho do medo. Uma delas, como já constatámos no texto anterior, é o recurso à expressão “Estás a ser muito egoísta neste momento!”. A verbalização destas palavras coloca o foco a incidir no outro. Contudo, há uma outra expressão – que tem muitas descendentes -, e que para além da sua recorrente utilização evidenciar que nos estamos a mover pelo caminho do medo, também coloca o foco a incidir na nossa própria pessoa. Será que estamos a pensar na mesma? 🙂 Refiro-me à expressão: “Fiz isto por ti!”

O “fazer por ti”, algo que ainda nos está muito associado ao verdadeiro gesto de altruísmo e à necessidade de sermos validados como “boas” pessoas, implica a aquisição de todo um conjunto de consequências, que podem ser mais ou menos subliminares (também em virtude de nos terem pedido para fazer alguma coisa ou não), e cujo valor de compra, apesar de bem autêntico, encontra-se dissimulado por entrelinhas de letras miudinhas. E essas, ou nos passam despercebidas, ou, mesmo que olhemos para elas, nem sempre nos disponibilizamos para as ler com o merecido e devido estado de presença.

E assim como quem redige as letras miudinhas o faz numa tentativa de renunciar a qualquer efeito que possa provir da possível falta de uma leitura atenta, quem afirma perante o outro “fiz isto por ti”, também está a prescindir da sua responsabilidade como elemento participante em todo o processo.

No inconsciente desta tentativa de nos livrarmos da nossa responsabilidade reside – até onde consigo abranger atualmente –, não só uma necessidade de considerar que o fazer pelo outro nos previne do julgamento de podermos ser considerados uma “má” pessoa, mas também uma intenção de ficarmos completamente ilesos de eventuais sentimentos de culpa.

É como se o recorrer a uma expressão do género “fiz isto por ti”, firmasse um contrato entre mim e o outro.

Na sua primeira cláusula fica logo estabelecida a minha evidente capacidade de altruísmo e, por consequência, o facto de eu ser uma “boa” pessoa.

No entanto, por muito que o contrato estabelecido entre duas entidades esteja bem elaborado, o terreno onde ele assenta – que é a área dos relacionamentos – não é completamente estático. Todos nós sabemos que se trata de um terreno sujeito a oscilações e a movimentos não previstos. Ou seja, no fundo, todos nós sabemos que, num contrato elaborado nestes termos, as condições para que o sentimento de culpa possa emergir tornam-se deveras favoráveis. E cada um de nós, de algum modo, sabe que ele pode despoletar a qualquer momento. É por isso que, logo a seguir, a segunda cláusula deste contrato estabelece que a pessoa em quem se pode depositar a culpa é: o outro. Afinal, se foi pelo outro que agi como agi e, se ao agir assim, estou a ser uma boa pessoa, então, a existir um culpado por algo que não suceda como o esperado, só pode ser… o outro.

Estas são algumas das cláusulas possíveis quando o contrato é do tipo “A Responsabilidade é Tua”. Porém, existe um outro tipo de contrato, que é “A Responsabilidade é Minha”. Neste, a primeira cláusula mantém-se firme e hirta (como uma barra de ferro. Não resisti à brincadeira! 😀 Para quem não entendeu – ou quiser relembrar – deixo o link aqui). A segunda, contudo, altera-se para estabelecer que o depositário da culpa sou eu.

Quando firmo este outro tipo de contrato, assumo a postura de ser a única responsável por toda a dinâmica e por todos os resultados que dela possam advir. Se a minha intenção for a de ajudar, pretendo tanto fazer algo pelo bem-estar do outro que, se tudo correr conforme o esperado, é garantido que obtenho, efetivamente, a comprovação de que sou realmente uma “boa” pessoa. Por outro lado, se os eventos descarrilarem, não vou conseguir lidar com o facto do outro se poder sentir mal/responsável/culpado e vou querer tomar todo o mal-estar, responsabilidade e culpa para mim (tento sofrer na vez do outro, para que ele não sofra). E até nesta ampla disponibilidade para tomar todo este fardo somente para mim, habita a minha necessidade de ser considerada uma “boa” pessoa – “se consigo suportar tudo isto pelo outro, só posso ser uma boa pessoa…”

E haveria aqui tanto mais para explorar… Este está a ser-me um texto particularmente difícil de escrever precisamente por causa disso. Tenho sentido tantas ramificações a quererem surgir, que fico confusa ao tentar perceber qual delas poderá ser a melhor via a seguir. Mas pronto, no conjunto de todas as nuances, vou escolhendo aquelas que sinto a ressoar mais em mim e, neste momento, parece-me que já está elaborada uma base para poder sustentar aquilo que vem a seguir.

Contudo, antes de avançar, gostaria de saber: está a fazer-te sentido?

Quanto a mim, nunca fez tanto sentido como agora. Reconheço que, por diversas vezes, tenho sido egoísta dentro do caminho do medo e, de cada vez que firmei um destes contratos com alguém, a minha visão não abrangia as entrelinhas das tais palavras formadas por letras miudinhas.

Sim, porque embora à primeira vista não pareça, estes contratos estão repletos delas. E elas são de tal modo significativas que, só ao apreciá-las com a merecida atenção, é que nos capacitamos a reconhecer o real valor de compra do que estamos a acordar. Ora, vejamos…

No exemplo do contrato “A Responsabilidade é Tua”, o prescindir da nossa responsabilidade na questão, transporta consigo muito mais do que aquilo que gostaríamos de deixar ir. Afinal, e como por aqui já foi referido, a Responsabilidade anda sempre de mãos dadas com a Liberdade. Para onde uma vai a outra segue logo no seu encalço… Portanto, de cada vez que dispensamos a nossa responsabilidade, abdicamos também da nossa liberdade.

Neste caso, quando afirmo perante alguém “estou a fazer isto somente por ti”, aquilo que estou a abandonar, logo nesse instante, é a minha responsabilidade/liberdade de escolha. Se considero que é irrelevante ter Coragem de assumir, perante mim mesma acima de tudo, que se trata de algo que escolhi fazer, e que, precisamente por isso, é por mim que o faço em primeiro lugar, já estabeleci uma considerável distância entre mim e a minha Responsabilidade. E no preciso momento em que esse espaço de separação se quantifica, inevitavelmente, a igual distância de mim, fica a minha Liberdade.

As letras miudinhas neste tipo de contrato clarificam ainda que, este afastamento entre mim e a minha responsabilidade/liberdade, para além de ter sido uma escolha minha, provoca uma imediata distância entre mim e a minha Essência. E no exato instante em que ocorre este desalinhamento com quem Sou, surge algo que tendemos a evitar a todo o custo: a dor.

Um sentimento de dor manifesta-se, precisamente, para que consigamos perceber que nos estamos a afastar do essencial: de nós mesmos. Porém, como tendemos a evitar tudo o que nos remeta para a dor, vamos ter dificuldade em reconhecer que fomos nós que a causámos, através das escolhas que fomos fazendo. Quando nos encontramos neste ponto, começamos a vislumbrar a iminência de nos sentirmos culpados por aquilo que nós próprios causámos. E como há um lado nosso que vai querer continuar a mover-se pelo caminho do medo, é aqui que desperta em nós uma vontade de nos afastarmos do outro, projetando para ele tudo o que acabámos de criar. E mais uma vez, por pura desatenção, não percebemos que, se me afasto do outro, para prevenir um eventual surgimento do sentimento de culpa em mim, a pessoa de quem fico mais distante é a minha.

É desta forma que, no âmbito do contrato “A Responsabilidade é Tua”, se reúnem as condições perfeitas para podermos depositar a culpa do nosso mal-estar… no outro. Ao seguir todos estes trâmites cumprimos com a segunda cláusula, sem olhar para as tais das letras miudinhas que referem ainda que, este depositar da culpa no outro, acabará por levar a que ele se afaste de nós também. Ninguém gosta de transportar fardos que não são seus…

No caso do contrato “A Responsabilidade é Minha”, as letras mais pequeninas esclarecem que, se tento tomar para mim toda a responsabilidade, é porque estou a tentar levar comigo muito mais do que aquilo que me pertence.

Ainda te lembras do que é que anda sempre de mãos dadas com a Responsabilidade?

Pois é! De cada vez que tentamos tomar a responsabilidade do outro na questão, “fazendo tudo por ele”, estamos também a tentar levar a sua liberdade. Não estou a dizer que seja de propósito, nem sequer que seja um comportamento consciente mas, que o fazemos, lá isso fazemos.

Ao exercer este tipo de comportamento, em que assumimos uma postura de que só eu consigo fazer algo de bom ou útil pela situação, acabamos por criar uma dinâmica que anula a existência do outro no processo. De modo consciente ou inconsciente, estamos a considerar que o outro é incapaz de lidar com um determinado evento, sendo que até poderá ter sido ele próprio a criá-lo (lembra-te que somos cocriadores da nossa realidade).

O outro, por sua vez, acabará por sentir o que lhe estamos a fazer e, como talvez já te esteja óbvio, terá tendência a afastar-se. E aqui, as entrelinhas que escapam à nossa visão, mas que seguem em paralelo com o exemplo do contrato anterior, esclarecem que tudo isto reflete apenas a enorme distância a que estamos de nós mesmos. Eu estou tão distante de quem Sou – o que me leva a sentir dor – que estou disposta a fazer tudo pelo outro, a ver se dissipo a dor que sinto.

Se a partir daqui os acontecimentos ocorrerem de modo que eu considere favorável, provavelmente ainda vou conseguir desfrutar de uma momentânea sensação de bem-estar. Por outro lado, se o inesperado surgir e eu o considerar desfavorável, como firmei um contrato em que a responsabilidade é toda minha, para além de tentar levar toda a responsabilidade (a minha e a do outro) – e a liberdade do outro -, sem dúvida que ainda vou levar toda a culpa. E é assim que, em menos de nada, colapso todo um abismo, que me faz permanecer a uma enorme distância. Tanto de mim. Como do outro.

E estes são apenas meros exemplos daquilo que é exercer o egoísmo dentro do caminho do medo. Sendo que, na generalidade, o nome que costumamos atribuir a tudo o que aqui foi enumerado, como decretando algo de bom a ser feito, é: altruísmo.

Dá que pensar, não dá?

Espero que sim! Espero que todo este reconhecimento, feito com a devida leveza, toque uma parte tua. Aquela parte que está em alinhamento com quem És. Aquela parte que te incentiva a escolher, Agora e sempre, o Caminho do Amor.

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho

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