O coração não se parte

Para quem me acompanha desde o início não é novidade que, o ano passado, foi-me um ano muito marcante, pois considero que foi o ano do meu grande despertar. Um despertar que não implica, nem tão pouco mais ou menos, conceber a amplitude do Todo mas, que me posicionou na tomada de consciência de que, em Tudo, há muito mais profundidade e vastidão do que à primeira vista conseguimos alcançar. Uma primeira vista que, muitas vezes, damos por garantida, certa e irrefutável. Porém, num Universo em que a nossa condição humana nos condiciona no modo de abarcar o tanto de possibilidades existentes – ou não fossem elas infinitas -, não sei se alguma vez poderemos considerar algo como garantido, certo e irrefutável… Talvez o mais garantido seja mesmo a mudança. Esse constante movimento de todos os corpos celestes e terrestres que, de tão subtil que pode ser, nos induz a uma sensação de quietude estática.

Mera ilusão

Num Universo em expansão tudo se movimenta, ou não fossem todas as ínfimas partículas que o constituem provenientes da mais incrível e poderosa fonte de energia que cria, constrói e transforma mundos.

E foi assim que me senti no ano passado: a expandir. A começar a tomar consciência de que essa incrível fonte de energia também está na raiz do meu Ser. Na de todos os Seres. Sem qualquer exceção.

Ao longo deste ano, que tem estado a passar num ápice – ou pelo menos é assim que o estou a sentir, agora que o vislumbre do seu fim já se personifica de modo quase impossível a não ser notado -, aquela sensação de expansão manteve-se presente. Mais ligeira. Num ritmo mais brando mas, sempre a constituir evidência de que há amplitudes que, depois de alcançadas, não podem ser retraídas.

A meio deste ano, em Junho precisamente, a Vida fez-me um convite. Um daqueles convites que, volta e meia ela nos faz, para nos colocar diante do que somos capazes de passar uma vida inteira a tentar evitar.

E, acredita, de cada vez que a Vida te faz um convite deste calibre, ela está a ser incrivelmente generosa contigo. Não te vai parecer assim. Eu entendo que não. No contacto inicial, pode parecer-te que ela está a ser ingrata ou até a tentar punir-te por algo. Falta de sorte, talvez penses. “Vida madrasta”. Só que não há nada de madrasto na Vida.

A parte tua que te leva a pensar que a Vida te está a dificultar a vida, é precisamente a parte tua que precisa de ser curada. Acolhida. Integrada no todo que ÉS. Enquanto tiveres partes tuas por acolher, vais sentir-te sempre incompleto e, na tua tentativa de fugir da dor que isso te causa, vais procurar por aquilo que te complementa em todos os lugares errados. E enquanto insistires nessa busca lá fora, daquilo que só pode ser resolvido dentro, mais alimentas a fuga, a dor… a rejeição. E o irónico é que, por muito que queiras apontar o dedo e afirmar que é algo ou alguém que te está a rejeitar, o certo é que o mundo apenas te está a espelhar a rejeição que tu fazes de ti próprio. Essa parte com a qual evitas lidar a todo o esforço é tua e, no incómodo que ela faz questão de te provocar, está apenas a pedir-te para olhares para ela; para que a deixes voltar e permanecer onde ela realmente pertence: a Ti.

E a Vida, na sua imensa sabedoria, ajuda neste processo. Todos os componentes que, de algum modo, tu também foste cocriando, acabam por convergir num evento que abala toda a tua estrutura – ou a ilusão da estrutura que julgavas ter -, e vês-te perante as circunstâncias em que tanto investiste para evitar.

No meu caso, o culminar dessas circunstâncias ocorreu num evento que se manifestou em Junho. E valeu-me… Valeu-me o facto de já estar desperta para algumas questões. Valeu-me o facto de, nos meses que o antecederam, me ter permitido expandir mais um pouco, embora tenha sido só naquele exato momento, diante daquelas circunstâncias, que eu tenha tomado consciência do caminho entretanto percorrido.

Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de entender que, na minha rejeição/fuga do que tinha acontecido na linha do relacionamento em questão até àquele instante, eu passei anos a fio a rejeitar uma parte minha. Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de conseguir acolher e aceitar muito do que tinha acontecido até então, exatamente da forma como aconteceu. Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de conseguir entender que, nessa aceitação, eu ficava mais completa. Mais inteira. Mais una. Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de saber que, por muito que um coração se tenha sentido magoado, e por muitas razões que a mente, movida pela voz do ego, nos tenha apresentado para continuar a alimentar essa mágoa, ele consegue transbordar um amor que nem sequer imaginava que pudesse ter em mim. Um amor que consegue transcender qualquer uma daquelas razões e que acalma, apazigua, precisamente porque une os fragmentos aparentemente estilhaçados e espalhados.

No cerne dessas razões que a mente egóica gosta de nos apresentar reside, não só a possibilidade da nossa fragmentação, mas também a tendência para nos identificarmos com questões que não são nossas. E ao sermos movidos por uma força que não deixa de ser amor, tomamos o que é do outro como nosso, numa tentativa de poder ajudar, pertencer e, no maior dos extremos, de tentar salvar… E seguindo o esforço destas tentativas vãs, que ilusoriamente nos parecem sempre a via mais lógica a adotar, assumimos uma lealdade para com o outro, que nos leva a repercutir os mesmos tipos de comportamento que ele exerce, como se pudéssemos levar o fardo que é do outro connosco, para que ele não tivesse de o transportar.

De novo, mera ilusão…

Fardos que são do outro só ao outro pertencem. Fardos que são teus só a ti pertencem. Fardos que são meus só a mim pertencem.

Porém, nesta nossa tentativa de carregar o que ao outro pertence, blindamos a nossa própria visão e não percebemos que, como se trata de algo impossível de fazer, acabamos é por criar um novo fardo. E esse sim é nosso e só nós podemos transportar.

Contudo, mais uma vez, podemos passar anos a fio a ser movidos por esta ilusão. Eu passei. Creio que há situações nas quais ainda estou a passar…

E, mais uma vez também, a Vida, na sua incrível generosidade, reuniu todos os componentes necessários para que aquilo que tentei a todo o custo transportar, mesmo que de modo inconsciente, pudesse vir à tona.

E veio! Oh, se veio…

Cheguei a ler algures que, de acordo com o alinhamento dos astros, o momento era mesmo de cura e que, se não o estivéssemos a sentir, é porque não estaríamos vivos. Atendendo a este ponto de vista, sem dúvida que, Novembro, foi o mês em que estive mais viva este ano.

À medida que se aproximava o momento agendado que me ia ajudar a clarificar aquilo que eu, mesmo sem saber conscientemente, tinha escolhido transportar, todas as circunstâncias à minha volta se organizaram para convidar a esse sentir.

Um sentir que doeu! Oh, se doeu…

Um sentir que me apertou o peito durante alguns dias, ao ponto de me custar respirar. Um sentir que me baralhou os sentidos. Um sentir que me fez sentir como se o coração se estivesse a partir. Um sentir que me permiti sentir. Um sentir que eu tinha de sentir, precisamente para poder começar a poisar um fardo que não era meu para transportar.

E foi precisamente por todo este sentir, que eu acabei por sentir: o coração não se parte!

O que se parte, o que se estilhaça dentro de nós, é o tal bloco de betão com que cobrimos o coração. Aquele bloco que vai aumentando de volume a cada mágoa que escolhemos tomar como nossa e guardar para suposta proteção de mágoas futuras. E quanto mais denso for esse bloco, mais o peito aperta. Mais o peito dói.

Contudo, por muito que doa, acredita, o coração não se parte.

E o que doer, deixa doer. Deixa doer para que passe depressa.

Por vezes, para renascer, é preciso quebrar. Portanto, deixa que esse bloco se estilhace. Deixa que ele se fragmente e se despedace.

Confia.

Confia que o coração não se parte. E que, a cada fissura que surgir, há um feixe da tua Luz a incidir no Mundo. Uma Luz que só tu podes brilhar. Uma Luz que só tu podes ser. Uma Luz que só tu podes viver.

E o Mundo precisa da tua Luz. Por isso, atreve-te: brilha, sê e vive a Luz que És!

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho

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Pelo outro ou por mim? – 6.ª parte

Na dimensão da escala do que realmente somos – um Universo numa só pessoa -, como é que os relacionamentos, sejam eles de que género for, podem dar certo se passamos o tempo todo a querer identificarmo-nos e a projetar para os outros o que temos dentro? Como é que os relacionamentos podem dar certo se temos em nós toda uma ideia concebida, construída ao longo de anos, de como os relacionamentos devem funcionar para, supostamente, poderem dar certo?

Aliás, será que é possível estabelecer, consolidar e apregoar uma base que defina o que é um relacionamento “certo”? Será que podemos realmente determinar modos de comportamento e de ação, que possam ser generalizados a cada tipologia de relacionamento, quando a diversidade que existe no interior de cada indivíduo é de uma magnanimidade tão vasta, que apenas a podemos conjeturar?

No entanto, é precisamente na nossa intenção de querer, por vezes a todo o custo, que um relacionamento dê certo, que nos vamos entrelaçando, até ficarmos completamente atados em apertados nós, nas circunstâncias que emergem no decorrer do assumir uma postura de fazer o que fazemos pelo outro.

E para aqueles de vocês que ainda possam estar tentados a pensar que há um relacionamento que serve de exceção, e que normalmente é o de pais para filhos – algo que foi abordado na 1.ª parte deste tema -, importa ressalvar que, assim como os filhos não sabem o que é o melhor para os seus pais, muitas vezes, os pais também não agem de acordo com o que é realmente o melhor para os seus filhos. Afinal, assim como os filhos não acompanharam a história toda da vida dos pais, e não têm como conhecer toda a individualidade que constitui cada um daqueles seres, os pais também não têm como acompanhar a história toda da vida dos seus filhos.

Por tudo isto, de cada vez que nos deparamos com um cenário que nos impele ao recurso do fazer algo por alguém, convém que tenhamos presente que nós podemos até colaborar para ajudar mas, precisamos tomar muito cuidado com a possibilidade de nos responsabilizamos por aquilo que é dos outros. E isto é algo que é transversal a todo e qualquer relacionamento.

Assim sendo, e lembrando que, na essência, somos seres energéticos integrados num sistema onde tudo é essencialmente energia, em Ti, está todo o Universo. Cada um que percecionas como sendo o Outro, é uma parte tua. Cada um que eu perceciono como sendo o Outro, é uma parte minha. E à medida que vamos conseguindo incluir toda esta abrangência, fica-nos mais fácil compreender que o único local onde podemos realmente fazer alguma coisa é em nós.

A única pessoa por quem podes efetivamente fazer algo é a tua.

Portanto, de cada vez que nos deparamos com aquilo que pode ser designado como um problema, em vez de nos focarmos em resolver o que está na nossa frente – fora de nós -, foquemo-nos em elevar a nossa frequência energética.

Começa no ponto onde estás, aceitando e acolhendo tudo o que possas estar a sentir. Acima de tudo, sê gentil contigo.

Sem pressas.

Fica aí, a deixar que essa sensação de aceitação e de gentileza se consolide no teu peito.

E assim que te sentires conectado com o teu centro, podes começar a escalar os degraus da escada que te leva para o topo de Ti. Não precisas de os subir todos agora. Basta que os vás subindo, um a um, na medida em que vais descobrindo qual o próximo pensamento que te faz sentir bem, pois, subir essa escada, é o mesmo que seguir a tua Alegria.

Ao movimentarmo-nos deste modo, elevando a nossa frequência, a forma como nos sentimos perante a situação altera-se. E é aqui que abrimos espaço para que, aos poucos, a magia comece a acontecer… Gradativamente, começa a ocorrer uma mudança ao nível da nossa programação interna, que, por sua vez, desencadeia uma progressiva dissolução de tudo aquilo que estava emaranhado. E por muito incrível e fantasioso que te possa parecer – o que certo é que acontece -, é como se a situação se resolvesse por si mesma.

Vou propor ainda outro cenário… Imagina que tu e as pessoas com quem te relacionas, e que têm “problemas” que tu gostarias de ajudar a resolver, estão numa mesma divisão, completamente às escuras. E cada uma dessas pessoas, incluindo tu próprio, têm a sua própria luz e o respetivo interruptor para a acender. Contudo, cada interruptor tem um estado de conservação muito peculiar e, como estão às escuras, ninguém tem como ver onde está, nem como está, o interruptor de cada um. Nestas circunstâncias, qual é o interruptor a que consegues aceder primeiro: o teu ou o do outro? Qual é mais seguro e viável acender primeiro: o teu ou o do outro?

Ao quereres ajudar, assumindo uma postura de “estou a fazer isto por ti”, sem acenderes primeiro a tua própria luz, para que consigas ver o que realmente te rodeia, corres o risco de danificar ainda mais o estado de conservação do interruptor do outro. Um estrago que, irremediavelmente, terá consequências para ti também, pois, o certo é que continuarão às escuras mas, agora, soma-se o peso crescente da dúvida sobre a dimensão daquilo que se terá danificado…

Por outro lado, e como é tua genuína vontade ajudar essas pessoas, tu realmente queres que cada uma delas acenda a sua luz. Contudo, não te soa a egoísmo exercido no caminho do medo, este querer que qualquer uma dessas pessoas acenda a sua Luz, quando tu não estás disposto a permitir que a tua própria Luz se acenda? Como é podes querer ver, ajudar e fazer algo por qualquer uma dessas pessoas, se não estás disposto a ver-TE? A ajudar-TE? A fazer por TI?

É por isto que, quando envolto na escuridão, com a certeza de que contigo estão Todos, acende primeiro a tua Luz. Aliás, acesa ela já está. Sempre esteve. Talvez esteja coberta pelo pó acumulado dos anos ou escondida debaixo de um valente bloco de betão. Enfim, só tu sabes como tens vindo a impedir essa Luz de brilhar no Mundo. E, no fundo, também sabes que sacudir esse pó ou quebrar esse bloco vai levantar poeira.

Se o fizeres, durante algum tempo vai-te custar respirar, não nego. Mas a poeira acabará por assentar. O ar voltará a ficar respirável e, quando isso acontecer, há mais espaço para essa tua Luz poder circular e viajar do teu centro para o centro de tudo.

Portanto, toma Coragem. Sacode o pó. Fragmenta esse enorme bloqueio que trazes no peito e deixa-te surpreender pelo vislumbre, daqueles que são apenas alguns flashes, de toda a Luz que trazes dentro. De toda a Luz que ÉS. Permite que ela irradie, mais e mais, a partir do teu coração e que, aos poucos, comece a iluminar tudo e todos à tua volta.

Quem nós somos influencia diretamente a vida das pessoas que convivem connosco. A nossa convivência influencia. A nossa convivência transforma, por isso, é sempre por nós que fazemos o que fazemos. E, ao ser por nós, acaba por ser PARA os outros.

“Podemos mudar o mundo. Não pelo que dizemos ou fazemos, mas como consequência daquilo em que nos tornamos.”

Dr. David R. Hawkins, Deixa Ir

Neste Mundo do Tudo Eu deixa que a tua Luz brilhe primeiro, para que, ao ver o brilho da tua Luz, outros possam ver a Luz que também são.

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho

Pelo outro ou por mim? – 5.ª parte

A cada texto que escrevo sobre esta temática sinto que a ideia de aceitar o egoísmo como um estado natural do nosso Ser, é algo que, com a devida leveza, se vai permeando e instalando em mim.

E contigo? Tem sucedido o mesmo? Espero que sim!

Como temos vindo a constatar, independentemente do caminho por onde nos estamos a mover no momento atual, acabamos sempre por ser egoístas.

No caso do texto anterior, que foi muito focado em cenários possíveis para o exercer do egoísmo dentro do caminho do medo, acabei por perceber que, atendendo a todas as ramificações que se iam formando, tornou-se inevitável seguir aquelas que faziam mais sentido para mim, por serem as que mais se aproximam à realidade das minhas vivências. (Olha eu a ser egoísta… 🙂 ). Para além disso também constatei que, até o uso da palavra “fiz”, dentro da expressão “Fiz isto por ti!”, remete logo para o Eu. Portanto, como talvez já te esteja deveras evidente e, espero, em vias de ficar completamente dissociado de qualquer sentimento de culpa ou da possibilidade de julgamento de poderes ser considerado uma “má” pessoa, o certo é que, mesmo que o nosso egoísmo seja realizado dentro caminho do medo, continuamos a agir por interesse próprio. Somos egoístas, sempre.

No início desse texto também aludi duas situações, algo caricatas, que me tinham acontecido naquela semana, tendo referido que deixaria uma delas para relatar numa próxima.

Pois bem, o que aconteceu nessa mesma semana foi que, no decorrer de uma conversa repleta de diversos tópicos, e sem qualquer referência ao facto de eu elaborar algum trabalho de escrita, houve alguém que me disse que, quando uma pessoa alimenta demasiado o amor-próprio, isso torna-se nocivo porque, é como se a pessoa só se visse a ela mesma. Diante destas palavras, o que retorqui foi apenas: “Isso não é Amor-Próprio.” Ao que a pessoa respondeu, olhando para mim com os seus olhos claros, grandes e expressivos: “Pois não! É ego.”

Ao seu jeito, aquela pessoa estava a apresentar-me uma definição do que significa para ela ser egoísta dentro do caminho do medo. Contudo, a sensação com que fiquei foi que faltava ali uma certa dose de clareza, visto que, os termos “amor-próprio” e “nocivo” realmente não conjugam.

De algum modo, até de acordo com a definição que podemos encontrar no dicionário – Amor exclusivo à pessoa e aos interesses próprios -, a palavra egoísmo expressa, precisamente, Amor-Próprio. Assim à primeira vista, acredito que talvez não seja logo percetível, devido à presença da palavra exclusivo que, inserida naquele contexto, pode transmitir a sensação de um espaço tão limitado e restrito, onde, muito dificilmente, caberá algo mais para além do Eu. Circunstância que, aliás, já tinha sido referida neste texto e que nos ajuda a criar e a sustentar a ideia – que inconscientemente fica instalada na nossa programação interna – de que somos “maus” por exercermos o Amor-Próprio.

E é justamente por tudo isto que sinto que se torna imprescindível continuar falar do egoísmo como uma forma natural de Ser, motivando-me para o fazer cada vez mais dentro do Caminho do Amor, ao mesmo tempo que te tento inspirar a fazer o mesmo. Afinal, e como tenho dado por mim a dizer com alguma frequência por estes dias, vivemos num Mundo de Tudo Eu. E acredito que a consequência do passo dado, na direção da aceitação deste facto, se constitui como algo fundamental para que o mundo se torne num lugar mais harmonioso, precisamente por ser assim.

Vamos descortinar?

Pois bem, se nós nascemos na vibração do Amor – e cada vez mais acredito que sim -, se o Amor Incondicional é o que está na essência do nosso Ser, é completamente impossível que, ao alimentar o Amor-Próprio, estejamos a conceber algo prejudicial para nós e/ou para os outros.

Tudo o que está na Vida de cada um de nós, sem qualquer exceção, é um veículo para o nosso crescimento pessoal/individual. E isto não se aplica só a mim, nem só a ti. Isto aplica-se a toda a gente…

Desta forma, faz todo o sentido que, independentemente do tipo de relação ou do elo de ligação que tenhamos com alguém, seja nossa prioridade colocar o nosso foco a incidir em quem Somos. Sempre!

A história – a Vida de cada um – é isso mesmo: a Vida de cada um. E a Vida de cada um somente àquele um pertence.

Num Universo onde tudo é essencialmente energia, tu tens uma assinatura energética única. E o mesmo se aplica a cada um de nós. Cada um de nós é um Ser único, com uma história de vida (talvez de vidas) única.

Há tanta informação guardada em ti, que acabas por ser um Universo numa só pessoa. Cada um que é o Outro, também é um Universo numa só pessoa. Portanto, de cada vez que nos relacionamos e interagimos com outra pessoa, não se trata apenas de duas pessoas a relacionarem-se. É todo um Universo a interagir e a relacionar-se com outro Universo.

Nesta imensidão daquilo que tu e o outro trazem dentro – e SÃO -, o que achas que pode acontecer de cada vez que colocas o foco fora de ti e tentas assumir a postura de fazer o que fazes pelo outro?

Para além dos cenários apresentados nos textos anteriores, costumamos adotar essa postura de fazer pelo outro, de cada vez que nos identificamos com ele e com as suas vivências. Porém, a partir do momento em que determinamos essa identificação, e tentamos assumir uma postura de querer ajudar o outro, aquilo que estamos realmente a estabelecer é a ocorrência de um emaranhamento. Ou seja, em vez da situação que está a ser interpretada como um problema se começar a resolver, ela tende a piorar. Afinal, é todo um Universo a tentar interferir no modo de funcionamento de outro Universo. Como é que isto pode dar certo, não é? Ademais, já não é só uma pessoa a considerar a existência de um problema, mas sim, duas. Por conseguinte, começa a haver somatização do que quer que seja com que nos identificámos. Para além disso, ao emaranharmo-nos nas situações do outro, começamos a querer ir no seu lugar. E, por muito que ainda nos custe reconhecer, isso é algo completamente impossível de se fazer.

Portanto, ao contrário daquilo que costumamos supor, isto não se constitui como ajuda. Antes pelo contrário…

A partir do momento em que se dá o emaranhamento deixa de haver espaço para que a energia de cada um se exerça. Surgem momentos de tensão, conflito, confusão… que, bem vistas as coisas, são avisos da própria Vida, a alertar-nos para o facto de estarmos a sair do nosso próprio alinhamento.

O resultado da tendência de te focares exclusivamente nos outros é o esqueceres-te de ti mesmo. Neste afastamento que estabeleces com a tua própria pessoa – desalinhamento -, ocorre uma exclusão, visto que há todo um Universo que fica abandonado. O teu! E se tu te excluis de ti mesmo, como é que podes ajudar o outro efetivamente?

Não podes… Não podemos.

Posto isto, não devemos, sob qualquer circunstância, identificarmo-nos com os outros ou com as suas vivências, independentemente dos laços de amizade, familiares, profissionais ou amorosos.

O nosso verdadeiro trabalho é SER. É Sonhar! Como tal, torna-se imprescindível que te alinhes com quem realmente És. Ao colocares o foco somente no teu centro, presente no teu próprio Universo, ficas automaticamente conectado com a Fonte. E é através da conexão com a vibração que brota do Caminho do Amor que tu abres, de par em par, a porta para a inclusão.

É possibilitando a inclusão do Universo que és em TI mesmo, que te permites o espaço para incluir o Universo que é o Outro.

Por isso, lembra-te: no Universo que é o outro e a sua Vida, só ele pode ir no seu lugar. Deixa-o ser egoísta.

No Universo que És tu e a tua Vida, só TU podes ir no teu lugar. Sê egoísta. E sê-o com todo o teu coração pois, acredita, nesse aparente pequeno cantinho do teu Ser, cabem muitos Universos.

Em TI, cabe o Universo inteiro!

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho

Pelo outro ou por mim? – 3.ª parte

Sinto-me contente por continuares desse lado a acompanhar-me, tanto na leitura, como na partilha do processo de descoberta. Eu, de mim. Tu, de Ti mesmo.

Não sei se sucede o mesmo contigo mas, eu sinto um fascínio imenso no desdobrar desta jornada. E embora ande na minha própria companhia há alguns anos, continua a firmar-se a presença da sensação de que há sempre algo novo a descobrir. A (re)lembrar.

Estes textos mais recentes são-me um bom exemplo disso mesmo.

Para vocês ficarem com uma noção, já tinha sentido que teria de abordar esta temática há cerca de uns três meses. Quando comecei a escrever aquele que se tornou na sua 1.ª parte, considerei que apenas um texto bastaria. Porém, à medida que me vou envolvendo nas palavras e na sua simbiótica reflexão, de vez em quando, emerge uma… possibilidade. Uma possibilidade que me transporta, por uma fração de espaço que se estende diante de mim, para um estado um pouquinho mais além do que aquele onde me encontrava.

São pequenos momentos em que me sinto a abranger mais. A acolher. A integrar. A expandir… E o que resulta daí, de forma mais visível neste suporte, são textos também mais extensos, que acabam por ter de se subdividir.

Aquilo que não se torna tão visível para vocês mas, que eu sinto bem no âmago do meu Ser, de cada vez que o processo flui pelo processo que acabei de vos descrever, é uma imensa Alegria.

E pegando neste ponto posso aproveitar para estabelecer uma ponte com o tema que temos vindo a abordar. Afinal, apesar de eu ter a intenção de que os textos que escrevo cheguem ao maior número de leitores possível, e que cada um de vocês reúna a Coragem necessária para partir – ou continuar – à descoberta de Si mesmo e dos seus Super-Poderes, a verdade é que o faço, essencialmente, por mim. Sou eu a primeira privilegiada a usufruir da sensação de bem-estar que obtenho com todo o processo de escrita e de partilha.

Sou egoísta. Contudo, como referi no texto anterior, ainda estou em fase de aprendizagem. Ainda estou a aprender a aceitar e a acolher esse meu lado, sem lhe inculcar nenhuma carga de que a sociedade me possa considerar uma “má” pessoa, de cada vez que reconheço que faço o que faço por mim. Sempre!

É em momentos como este, em que, apesar de ter em mim uma certa dose de preocupação com essa validação externa, escolho avançar pelo caminho que pode não ser o expectável para os outros mas que, pela orientação do norte da minha bússola interna e pela incrível sensação da vibração que daí resulta, me permite sentir, mesmo que por breves instantes, mais próxima de quem realmente Sou. E à medida que essa contiguidade com a Fonte se vai clarificando, desponta em mim a capacidade de reunir um pouco mais de Coragemé preciso Coragem para escolher o Amor sobre o medo. A dose de Coragem necessária para afirmar que, ser egoísta, dentro do Caminho do Amor, é o nosso estado mais natural de Ser.

Se bem que, mesmo quando não nos estamos a mover no Caminho do Amor, continuamos a exercer as nossas ações por interesse próprio. Sempre.

Por exemplo, quase de certeza que todos nós já ouvimos alguém a dizer-nos: “Estás a ser muito egoísta neste momento!”. Quase de certeza que tu, tal como eu, já disseste a alguém: “Ao agires assim, estás a ser muito egoísta!”.

Atendendo ao que fomos decidindo incutir na nossa programação interna, ao longo dos nossos primeiros anos de existência, proferir expressões semelhantes às enunciadas em relação a um determinado comportamento ou atitude do outro, tornou-se algo habitual. Um habitual que se torna tão frequente e quotidiano no nosso meio envolvente, que nem nos questionamos sobre o que estamos efetivamente a fazer.

E o que é que estamos efetivamente a fazer?

Para não generalizar, até porque a reflexão está a partir de mim e sou eu quem tem de apresentar a sua resposta, vou reformular a questão: “O que é eu estava efetivamente a fazer de cada vez que dizia a alguém: «Estás a ser egoísta»?”

E o incrível é que a resposta que me surge é bastante simples.

De cada vez que eu dizia a alguém que essa pessoa, num certo conjunto de circunstâncias, estava a ser egoísta, no fundo, o que eu lhe estava a dizer era que ela não estava a ter em conta os meus próprios interesses. E se estou a querer que o outro tenha os meus interesses em conta, estou a agir por interesse próprio. Portanto, de cada vez que eu apontava essa característica em alguém, estava a ser o quê? Ora lá está! Sempre a tal da egoísta.

Só que, como temos vindo a perceber, esta forma de ser egoísta é exercida dentro do caminho do medo. O caminho que nos leva à desconexão com a nossa essência. O caminho da vibração da escassez. Da falta…

Se preciso que o outro tenha em consideração os meus próprios interesses, é porque há algo que me está a faltar. E o leque daquilo que me poderá estar em falta pode ser imenso. No entanto, há apenas uma pessoa no mundo capaz de identificar, e colmatar, essa mesma falta.

Não foi o outro quem colocou a falta em mim. Fui eu.

Mesmo que o outro tenha tentado exercer alguma influência para que essa sensação de falta surgisse ou permanecesse, a única pessoa responsável pela escolha de aceitar essa influência sou eu. Sempre eu.

No teu caso, sempre tu.

E por muitas voltas que demos, vamos parar sempre a este ponto. Sempre eu. Sempre tu. Sempre os próprios interesses de cada um.

E, caramba, tenhamos Coragem para tomar esta Responsabilidade para nós. Pois, de cada vez que o fazemos, sentimos o sabor da nossa própria Liberdade. E ela sabe tããão bem…

Sentiste-a a começar a fervilhar em ti?

Por aqui, ela marcou presença. Espero que contigo também. Se assim foi, fica a saboreá-la um bocadinho. Deixa que ela se espalhe e difunda em ti. Fica só a senti-la. Ela merece.

E tu também!

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho

Pelo outro ou por mim? – 2.ª parte

Se és recém-chegado a este espaço (bem-vindo 🙂 ), coloco-te a questão da seguinte forma: como é que te sentes perante a possibilidade de saber que, na maior parte do tempo, és egoísta e fazes o que fazes por ti?

Por outro lado, se já nos cruzámos no texto anterior, como te tens sentido perante a ideia de acolher o egoísta que há em ti?

Soa algo estranho, não é?

Apesar de todo o trabalho de reflexão e de acolhimento que fiz até ao momento, de vez em quando, ainda me deparo com essa estranheza. Afinal, e tal como muitas outras ideias, crenças, valores e paradigmas, trata-se de algo que nos foi transmitido, em que consciente ou inconscientemente escolhemos acreditar, e que, a partir do momento em que o fizemos, fundimos o nosso Ser com a ideia que comprámos.

Neste caso, comprar é um termo bem adequado visto que o seu preço acabará por nos ser cobrado.

É que a partir do momento em que escolhemos acreditar, programamo-nos para modos de ação, de sentir e de entender, que estejam em consonância com aquela ideia, crença ou valor. Tudo em nós se formata para validar o “artigo” que acabámos de adquirir. E enquanto não nos depararmos com uma qualquer circunstância que abale esse nosso sistema de crenças, vamos mantendo essa formatação ao nível da nossa programação interna que, inevitavelmente, se reflete no nosso modo de estar externo.

Ao colocar tanta força de sustentação na interligação que estabelecemos entre quem somos e a representação daquilo em que escolhemos acreditar, torna-se inevitável que o nosso mundo interno estremeça, até à fundação dos seus alicerces, de cada vez que nos é apresentada uma ideia que não esteja de acordo com aquela que comprámos inicialmente.

Desta forma, sismos de elevada amplitude constituem-se como um procedimento substancial ao nosso processo de crescimento, desenvolvimento e autoconhecimento.

Expansão.

Adoro esta palavra e a ideia que lhe é subjacente: estamos em expansão, tal como o Universo. Portanto, o Universo também se expande através de nós.

Voltando atrás um pouquinho, é normal o sentimento de estranheza perante a constatação de que, na maior parte do tempo, somos movidos pelos nossos próprios interesses ou, dito de modo mais simples, é normal o sentimento de estranheza perante o facto de sermos egoístas.

Quase de certeza que tu, tal como eu e, muito provavelmente, a grande maioria das pessoas, foste educado para pensar que, ao agires de maneira egoísta, estarias a ser uma “má” pessoa.

Não faço ideia de quem é que se lembrou de inventar tal coisa e a razão pela qual foi movido a fazê-lo. Talvez se relacione, como muitas outras crenças que nos foram transmitidas, com o facto de nos quererem mais condicionados e limitados no nosso espaço de ação.

De algum modo convenceram-nos que, se agirmos tendo em conta os nossos próprios interesses, não deixaremos espaço disponível para os interesses do outro. Porém, ao categorizar este aspeto como “mau”, parece que, no fundo, o que nos tentaram transmitir foi o sentimento de que, se só gostares de ti, não haverá espaço – ou restará muito pouco – para que possas gostar de algo ou alguém mais. Contudo, isto é apenas a camada superficial. O que subjaz nela é muito mais profundo…

O núcleo da questão, que nos é consagrado no embrulho camuflado por aquela camada superficial, é a ideia de que somos “maus” quando exercemos o Amor por nós.

E aquilo que cada um de nós fez – ou ainda faz -, foi aceitar o presente oferecido, sem perceber que se trata de uma espécie de matriosca. Como não desembrulhamos todas as camadas, não nos apercebemos que acabámos de legitimar o julgamento de sermos “más” pessoas quando nos movemos pelo amor-próprio.

Ou seja, o que nos tentaram incutir – e provavelmente com uma enorme margem de sucesso – como sendo o correto, foi o sermos egoístas no caminho do medo.

Isto implica que, no caminho do medo, só sejas considerado “boa” pessoa se fizeres o que fazes pelos outros.

No caminho do medo, seres movido pelos teus próprios interesses e vontades suscita, imediatamente, um sentimento de mal-estar porque, ao nível da tua programação interna, todo o teu corpo te alerta para o facto de estares a ser uma “má” pessoa.

Exposto desta forma, fica-me mais fácil percecionar que, na permanência deste modo de estar, reside uma das principais causas que nos leva ao afastamento de nós mesmos. Da nossa capacidade de nos aceitarmos e amarmos, tal como somos.

A autoestima da sociedade em geral tem mesmo de sentir-se abalada, não é? E por mim falo…

Há muito tempo, comprei esse presente; desembrulhei-o até onde me pareceu que era o limite de tudo o que ele continha e ainda o tentei sugerir, como algo de vantajoso, a outras pessoas.

E embora já tivesse feito um rasgão – lá em 2009, quando senti que faço o que faço por mim, sempre – no papel que embrulha, bastante disfarçadamente, a oferenda de maior impacto, parece-me que, só agora, ao escrever e refletir sobre esta temática, é que o desembrulhei completamente.

O caminho de volta a nós pode ser realmente bastante longo. Mas, bem vistas as coisas, é proporcional ao caminho que escolhemos percorrer para nos afastarmos daquela que nos é, por direito, a pessoa mais importante das nossas vidas.

Ainda te causa estranheza olhar para ti e veres-te como a pessoa mais importante da tua vida?

Tudo bem. Não rejeites esse sentimento. Acolhê-lo faz parte da jornada. Aceitar esse pedacinho teu é um passo dado no caminho de regresso a ti.

E por muito distante e irrisório que ainda te possa parecer, atrevo-me a dizer-te, ao mesmo tempo que o digo a mim: a partir do centro de ti mesmo, é o único sítio de onde podes emanar Amor para o Mundo.

Só a partir de quem realmente És, só agindo por quem És, é que podes agir para os outros.

Por tudo isto, eu estou disposta a aprender a ser egoísta no Caminho do Amor.

E tu, acompanhas-me?

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho

Pelo outro ou por mim? – 1.ª parte

Estou sem escrever há tanto tempo que, agora, que finalmente me predispus a fazê-lo, encontro-me a ser invadida por uma sensação de nervoso miudinho, como se estivesse a duvidar da minha capacidade de retomar o trabalho que por aqui iniciei antes.

Sempre tão matreira esta voz da Resistência… Sempre tão atenta e perspicaz. Sempre prestes a infiltrar-se por uma qualquer ínfima fissura que lhe coloquemos à disposição.

Se bem que, parte deste nervoso miudinho também se deve a uma certa complexidade do tema. Afinal, o que existe de mais complexo do que os relacionamentos?

Sejam eles quais forem, sejam eles com quem forem, toda a nossa vivência é estabelecida e realizada com base em relacionamentos.

Eles são o que temos de mais comum na nossa condição humana. No entanto, por muita experiência, conhecimento e tempo de vida que tenhamos, deparamo-nos, persistentemente, com questões que estimulam, instigam e desafiam a nossa capacidade de nos relacionarmos, quer seja com os outros, quer seja connosco, quer seja com quem somos em relação aos outros…

Enfim, o tema é tão vasto que nos requer uma vida inteira (no mínimo 🙂 ) para aprimorá-lo.

E a questão levantada pelo título toca no cerne de algo que costuma ser presente e transversal a todos os relacionamentos: a nossa tendência de dizer – e realmente acreditar – que fazemos o que fazemos pelo outro.

Trata-se, inclusive, de uma questão que surge com alguma frequência em conversas com uma amiga pois, quando lhe digo que o que fazemos é sempre por nós próprios, ela remata sempre com o “Não tens filhos, não sabes.”

Obviamente, trata-se de um argumento que ela me pode devolver sempre, porque não tenho realmente filhos. Contudo, e talvez por todo o trabalho de reflexão feito anteriormente, e que tem vindo a permanecer em expansão, aquele argumento não entoa em mim, por muitas vezes que eu o ouça.

De facto, não tenho qualquer conhecimento de causa sobre o desafio que é relacionar-me com um filho mas, consigo conceber que toda a Vida é feita de desafios e que, a maneira como lidamos e agimos perante eles, depende do Ser de cada um.

Por outro lado, a vida permitiu-me vivenciar algumas experiências da outra via desse relacionamento: relacionar-me com os pais.

E tenho de confessar que, apesar de tudo o que acabei de escrever, fui tomada por uma dose de choque e de apreensão quando li pela primeira vez este trecho:

“Como seres humanos normais e “bons”, agimos eternamente por interesse próprio. Somos essencialmente egoístas.”

John C. Parkin, fuck it – Que Se Lixe!

Isto foi lá em 2009 e, mesmo sem ter filhos, eu alcançava esse paradigma de fazer algo pelos outros pois, essa era uma postura que eu fazia por assumir perante as pessoas que tinha como próximas e relevantes para mim.

Repararam nestas últimas palavras? Ao escrevê-las, surgiu-me logo a sensação de que, só por aqui, já se denota a diluição daquele paradigma. Afinal, quem é que considerava determinadas pessoas como próximas? Quem é que lhes atribuía relevância? Era eu, não era? Claro que sim. Portanto, a ideia de que faço o que faço por mim, sempre, adquire logo espaço de existência.

Porém, naquela altura, eu ainda não tinha efetuado qualquer observação e reflexão sobre esta temática e estava efetivamente convencida de que muitas das minhas ações eram feitas pelos outros.

Mais… apesar de ser de modo inconsciente, tinha presunção e arrogância suficientes para considerar que essas ações teriam significado efetivo e real na vida dos outros.

Nooossa…

Portanto, ao ler “agimos eternamente por interesse próprio”, muitas das minhas atitudes e ações que, até àquele momento, estavam categorizadas nos meus juízos de valor como sendo algo “de bom”, foram imediatamente colocadas em cheque.

A dúvida, aproveitando-se do momentâneo estado de surpresa, ainda fez por insistir em permanecer. Afinal, eu tinha vivido com essa crença durante todo o meu tempo de vida até então. Para além disso, havia um tipo de relacionamento que, embora não fosse do meu próprio conhecimento vivencial, eu concebia como sendo aquele em que realmente se faz algo pelo outro: o dos pais em relação aos filhos.

Só que no corpo do texto daquele capítulo do livro, escrito por um pai, estavam as seguintes palavras:

“Se tem uma família à sua volta e quiser argumentar que não faz as coisas por si mas pela sua família, pergunto-lhe: Porque constituiu família em primeiro lugar? Não foi por si? Não retira prazer de sustentar e de estar com a sua família? Se é assim, então também está a fazê-lo por si.”

E a ficha caiu.

Não porque tenha sido um pai ou um autor a escrevê-lo. Nem sequer porque eu tenha optado, deliberadamente, por estabelecer uma mudança em mim. Mas, naquele momento, eu senti: “Pois é, tudo o que fiz foi sempre por mim.”

E senti-o com bastante ênfase na palavra “sempre”.

À primeira vista pode parecer uma palavra algo excessiva que, de certa forma, condiciona o nosso espaço de ação. No entanto, desde que me tenho por gente até àquele ponto do tempo, e desde aquela altura até este instante em que me encontro a escrever, ainda não existiu uma circunstância na minha vida que lhe tenha servido de exceção.

Mesmo que na minha intenção de ação esteja incluída outra pessoa, eu sou movida a agir por aquilo que considero importante. Viável. Plausível.

Tudo o que fiz foi sempre por mim porque, todas as minhas ações, foram sempre desencadeadas pelas crenças, valores e paradigmas que trago dentro.

É certo que se pode retorquir que muitas dessas crenças, valores e paradigmas me foram transmitidos pelos outros. Contudo, quem é que escolheu acreditar neles e tomá-los como seus?

Pois é! Sempre eu.

No teu caso, sempre tu.

Engraçado! Agora que estou para aqui a escrever e a pensar nisto tudo, inevitavelmente, os registos de algumas memórias de infância vieram ter comigo. E, pelo olhar que me é possível ter em 2018, fica evidente, com uma profundidade que ainda não tinha alcançado que, no âmago de toda esta questão, os meus pais, no que aos filhos diz respeito, efetivamente, fizeram o que fizerem sempre por eles próprios. Por aquilo que eles consideravam como sendo o melhor, tanto para mim, como para o meu irmão.

E face a alguma ponta de dúvida que ainda espreite com o vislumbre da vontade de crescer, basta constatar que, perante o mesmo filho, numa mesma situação, os progenitores têm posturas diferentes. E não se trata apenas da postura de um pai ser diferente da de uma mãe. Trata-se de pai e mãe serem, acima de tudo, duas pessoas, dois seres humanos, com particularidades que são de cada um.

Perante um mesmo cenário, um filho não age exatamente igual a outro. Por sua vez, um pai também não age exatamente igual a outro. Assim como uma mãe também não age exatamente igual a outra, precisamente porque, a categoria que denomina o lugar de cada um na relação, que merece ser respeitada pela ordem que ajuda a estabelecer, não determina o nosso modo de ação.

Toda a ação, de qualquer ser humano, é motivada por aquilo que ele traz dentro.

No fundo, somos mesmo egoístas. Só que, ao contrário daquilo que foi sendo apregoado pela sociedade em geral – e que é a razão subjacente do nosso estado de choque quando nos deparamos com tal afirmação – está tudo bem em sermos assim.

O egoísmo não faz de nós “más” pessoas. Aliás, etiquetar as pessoas como “boas” ou como “más” é algo que cada vez me faz menos sentido. Todavia, e tal como tudo na Vida, o egoísmo pode ser exercido num de dois caminhos: medo ou Amor.

Portanto, abraça o egoísta que há em ti.

Ao acolhê-lo como uma parte tua, colocas-te em movimento no Caminho do Amor. E à medida que fores avançando, com um passinho a seguir ao outro, saberás que é aí que podes viver a plenitude do teu egoísmo, assim como a totalidade do teu Ser. Afinal, esse é o caminho em que te podes exercer em total responsabilidade… e liberdade!

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Em 2009, quando terminei de ler o capítulo ”Diga Que Se Lixe e Seja Egoísta”, do fuck it – Que Se Lixe!, disse a mim mesma algo do género: “Um dia ainda vou escrever sobre o egoísmo, fazendo referência ao ser-se egoísta pelo medo ou pelo Amor.” Hoje chegou o dia. 🙂 Olha eu a cocriar! Oh, yeah! 😉

Susana Martinho