O coração não se parte

Para quem me acompanha desde o início não é novidade que, o ano passado, foi-me um ano muito marcante, pois considero que foi o ano do meu grande despertar. Um despertar que não implica, nem tão pouco mais ou menos, conceber a amplitude do Todo mas, que me posicionou na tomada de consciência de que, em Tudo, há muito mais profundidade e vastidão do que à primeira vista conseguimos alcançar. Uma primeira vista que, muitas vezes, damos por garantida, certa e irrefutável. Porém, num Universo em que a nossa condição humana nos condiciona no modo de abarcar o tanto de possibilidades existentes – ou não fossem elas infinitas -, não sei se alguma vez poderemos considerar algo como garantido, certo e irrefutável… Talvez o mais garantido seja mesmo a mudança. Esse constante movimento de todos os corpos celestes e terrestres que, de tão subtil que pode ser, nos induz a uma sensação de quietude estática.

Mera ilusão

Num Universo em expansão tudo se movimenta, ou não fossem todas as ínfimas partículas que o constituem provenientes da mais incrível e poderosa fonte de energia que cria, constrói e transforma mundos.

E foi assim que me senti no ano passado: a expandir. A começar a tomar consciência de que essa incrível fonte de energia também está na raiz do meu Ser. Na de todos os Seres. Sem qualquer exceção.

Ao longo deste ano, que tem estado a passar num ápice – ou pelo menos é assim que o estou a sentir, agora que o vislumbre do seu fim já se personifica de modo quase impossível a não ser notado -, aquela sensação de expansão manteve-se presente. Mais ligeira. Num ritmo mais brando mas, sempre a constituir evidência de que há amplitudes que, depois de alcançadas, não podem ser retraídas.

A meio deste ano, em Junho precisamente, a Vida fez-me um convite. Um daqueles convites que, volta e meia ela nos faz, para nos colocar diante do que somos capazes de passar uma vida inteira a tentar evitar.

E, acredita, de cada vez que a Vida te faz um convite deste calibre, ela está a ser incrivelmente generosa contigo. Não te vai parecer assim. Eu entendo que não. No contacto inicial, pode parecer-te que ela está a ser ingrata ou até a tentar punir-te por algo. Falta de sorte, talvez penses. “Vida madrasta”. Só que não há nada de madrasto na Vida.

A parte tua que te leva a pensar que a Vida te está a dificultar a vida, é precisamente a parte tua que precisa de ser curada. Acolhida. Integrada no todo que ÉS. Enquanto tiveres partes tuas por acolher, vais sentir-te sempre incompleto e, na tua tentativa de fugir da dor que isso te causa, vais procurar por aquilo que te complementa em todos os lugares errados. E enquanto insistires nessa busca lá fora, daquilo que só pode ser resolvido dentro, mais alimentas a fuga, a dor… a rejeição. E o irónico é que, por muito que queiras apontar o dedo e afirmar que é algo ou alguém que te está a rejeitar, o certo é que o mundo apenas te está a espelhar a rejeição que tu fazes de ti próprio. Essa parte com a qual evitas lidar a todo o esforço é tua e, no incómodo que ela faz questão de te provocar, está apenas a pedir-te para olhares para ela; para que a deixes voltar e permanecer onde ela realmente pertence: a Ti.

E a Vida, na sua imensa sabedoria, ajuda neste processo. Todos os componentes que, de algum modo, tu também foste cocriando, acabam por convergir num evento que abala toda a tua estrutura – ou a ilusão da estrutura que julgavas ter -, e vês-te perante as circunstâncias em que tanto investiste para evitar.

No meu caso, o culminar dessas circunstâncias ocorreu num evento que se manifestou em Junho. E valeu-me… Valeu-me o facto de já estar desperta para algumas questões. Valeu-me o facto de, nos meses que o antecederam, me ter permitido expandir mais um pouco, embora tenha sido só naquele exato momento, diante daquelas circunstâncias, que eu tenha tomado consciência do caminho entretanto percorrido.

Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de entender que, na minha rejeição/fuga do que tinha acontecido na linha do relacionamento em questão até àquele instante, eu passei anos a fio a rejeitar uma parte minha. Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de conseguir acolher e aceitar muito do que tinha acontecido até então, exatamente da forma como aconteceu. Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de conseguir entender que, nessa aceitação, eu ficava mais completa. Mais inteira. Mais una. Um caminho que me levou a conhecer-me ao ponto de saber que, por muito que um coração se tenha sentido magoado, e por muitas razões que a mente, movida pela voz do ego, nos tenha apresentado para continuar a alimentar essa mágoa, ele consegue transbordar um amor que nem sequer imaginava que pudesse ter em mim. Um amor que consegue transcender qualquer uma daquelas razões e que acalma, apazigua, precisamente porque une os fragmentos aparentemente estilhaçados e espalhados.

No cerne dessas razões que a mente egóica gosta de nos apresentar reside, não só a possibilidade da nossa fragmentação, mas também a tendência para nos identificarmos com questões que não são nossas. E ao sermos movidos por uma força que não deixa de ser amor, tomamos o que é do outro como nosso, numa tentativa de poder ajudar, pertencer e, no maior dos extremos, de tentar salvar… E seguindo o esforço destas tentativas vãs, que ilusoriamente nos parecem sempre a via mais lógica a adotar, assumimos uma lealdade para com o outro, que nos leva a repercutir os mesmos tipos de comportamento que ele exerce, como se pudéssemos levar o fardo que é do outro connosco, para que ele não tivesse de o transportar.

De novo, mera ilusão…

Fardos que são do outro só ao outro pertencem. Fardos que são teus só a ti pertencem. Fardos que são meus só a mim pertencem.

Porém, nesta nossa tentativa de carregar o que ao outro pertence, blindamos a nossa própria visão e não percebemos que, como se trata de algo impossível de fazer, acabamos é por criar um novo fardo. E esse sim é nosso e só nós podemos transportar.

Contudo, mais uma vez, podemos passar anos a fio a ser movidos por esta ilusão. Eu passei. Creio que há situações nas quais ainda estou a passar…

E, mais uma vez também, a Vida, na sua incrível generosidade, reuniu todos os componentes necessários para que aquilo que tentei a todo o custo transportar, mesmo que de modo inconsciente, pudesse vir à tona.

E veio! Oh, se veio…

Cheguei a ler algures que, de acordo com o alinhamento dos astros, o momento era mesmo de cura e que, se não o estivéssemos a sentir, é porque não estaríamos vivos. Atendendo a este ponto de vista, sem dúvida que, Novembro, foi o mês em que estive mais viva este ano.

À medida que se aproximava o momento agendado que me ia ajudar a clarificar aquilo que eu, mesmo sem saber conscientemente, tinha escolhido transportar, todas as circunstâncias à minha volta se organizaram para convidar a esse sentir.

Um sentir que doeu! Oh, se doeu…

Um sentir que me apertou o peito durante alguns dias, ao ponto de me custar respirar. Um sentir que me baralhou os sentidos. Um sentir que me fez sentir como se o coração se estivesse a partir. Um sentir que me permiti sentir. Um sentir que eu tinha de sentir, precisamente para poder começar a poisar um fardo que não era meu para transportar.

E foi precisamente por todo este sentir, que eu acabei por sentir: o coração não se parte!

O que se parte, o que se estilhaça dentro de nós, é o tal bloco de betão com que cobrimos o coração. Aquele bloco que vai aumentando de volume a cada mágoa que escolhemos tomar como nossa e guardar para suposta proteção de mágoas futuras. E quanto mais denso for esse bloco, mais o peito aperta. Mais o peito dói.

Contudo, por muito que doa, acredita, o coração não se parte.

E o que doer, deixa doer. Deixa doer para que passe depressa.

Por vezes, para renascer, é preciso quebrar. Portanto, deixa que esse bloco se estilhace. Deixa que ele se fragmente e se despedace.

Confia.

Confia que o coração não se parte. E que, a cada fissura que surgir, há um feixe da tua Luz a incidir no Mundo. Uma Luz que só tu podes brilhar. Uma Luz que só tu podes ser. Uma Luz que só tu podes viver.

E o Mundo precisa da tua Luz. Por isso, atreve-te: brilha, sê e vive a Luz que És!

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho

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Pelo outro ou por mim? – 6.ª parte

Na dimensão da escala do que realmente somos – um Universo numa só pessoa -, como é que os relacionamentos, sejam eles de que género for, podem dar certo se passamos o tempo todo a querer identificarmo-nos e a projetar para os outros o que temos dentro? Como é que os relacionamentos podem dar certo se temos em nós toda uma ideia concebida, construída ao longo de anos, de como os relacionamentos devem funcionar para, supostamente, poderem dar certo?

Aliás, será que é possível estabelecer, consolidar e apregoar uma base que defina o que é um relacionamento “certo”? Será que podemos realmente determinar modos de comportamento e de ação, que possam ser generalizados a cada tipologia de relacionamento, quando a diversidade que existe no interior de cada indivíduo é de uma magnanimidade tão vasta, que apenas a podemos conjeturar?

No entanto, é precisamente na nossa intenção de querer, por vezes a todo o custo, que um relacionamento dê certo, que nos vamos entrelaçando, até ficarmos completamente atados em apertados nós, nas circunstâncias que emergem no decorrer do assumir uma postura de fazer o que fazemos pelo outro.

E para aqueles de vocês que ainda possam estar tentados a pensar que há um relacionamento que serve de exceção, e que normalmente é o de pais para filhos – algo que foi abordado na 1.ª parte deste tema -, importa ressalvar que, assim como os filhos não sabem o que é o melhor para os seus pais, muitas vezes, os pais também não agem de acordo com o que é realmente o melhor para os seus filhos. Afinal, assim como os filhos não acompanharam a história toda da vida dos pais, e não têm como conhecer toda a individualidade que constitui cada um daqueles seres, os pais também não têm como acompanhar a história toda da vida dos seus filhos.

Por tudo isto, de cada vez que nos deparamos com um cenário que nos impele ao recurso do fazer algo por alguém, convém que tenhamos presente que nós podemos até colaborar para ajudar mas, precisamos tomar muito cuidado com a possibilidade de nos responsabilizamos por aquilo que é dos outros. E isto é algo que é transversal a todo e qualquer relacionamento.

Assim sendo, e lembrando que, na essência, somos seres energéticos integrados num sistema onde tudo é essencialmente energia, em Ti, está todo o Universo. Cada um que percecionas como sendo o Outro, é uma parte tua. Cada um que eu perceciono como sendo o Outro, é uma parte minha. E à medida que vamos conseguindo incluir toda esta abrangência, fica-nos mais fácil compreender que o único local onde podemos realmente fazer alguma coisa é em nós.

A única pessoa por quem podes efetivamente fazer algo é a tua.

Portanto, de cada vez que nos deparamos com aquilo que pode ser designado como um problema, em vez de nos focarmos em resolver o que está na nossa frente – fora de nós -, foquemo-nos em elevar a nossa frequência energética.

Começa no ponto onde estás, aceitando e acolhendo tudo o que possas estar a sentir. Acima de tudo, sê gentil contigo.

Sem pressas.

Fica aí, a deixar que essa sensação de aceitação e de gentileza se consolide no teu peito.

E assim que te sentires conectado com o teu centro, podes começar a escalar os degraus da escada que te leva para o topo de Ti. Não precisas de os subir todos agora. Basta que os vás subindo, um a um, na medida em que vais descobrindo qual o próximo pensamento que te faz sentir bem, pois, subir essa escada, é o mesmo que seguir a tua Alegria.

Ao movimentarmo-nos deste modo, elevando a nossa frequência, a forma como nos sentimos perante a situação altera-se. E é aqui que abrimos espaço para que, aos poucos, a magia comece a acontecer… Gradativamente, começa a ocorrer uma mudança ao nível da nossa programação interna, que, por sua vez, desencadeia uma progressiva dissolução de tudo aquilo que estava emaranhado. E por muito incrível e fantasioso que te possa parecer – o que certo é que acontece -, é como se a situação se resolvesse por si mesma.

Vou propor ainda outro cenário… Imagina que tu e as pessoas com quem te relacionas, e que têm “problemas” que tu gostarias de ajudar a resolver, estão numa mesma divisão, completamente às escuras. E cada uma dessas pessoas, incluindo tu próprio, têm a sua própria luz e o respetivo interruptor para a acender. Contudo, cada interruptor tem um estado de conservação muito peculiar e, como estão às escuras, ninguém tem como ver onde está, nem como está, o interruptor de cada um. Nestas circunstâncias, qual é o interruptor a que consegues aceder primeiro: o teu ou o do outro? Qual é mais seguro e viável acender primeiro: o teu ou o do outro?

Ao quereres ajudar, assumindo uma postura de “estou a fazer isto por ti”, sem acenderes primeiro a tua própria luz, para que consigas ver o que realmente te rodeia, corres o risco de danificar ainda mais o estado de conservação do interruptor do outro. Um estrago que, irremediavelmente, terá consequências para ti também, pois, o certo é que continuarão às escuras mas, agora, soma-se o peso crescente da dúvida sobre a dimensão daquilo que se terá danificado…

Por outro lado, e como é tua genuína vontade ajudar essas pessoas, tu realmente queres que cada uma delas acenda a sua luz. Contudo, não te soa a egoísmo exercido no caminho do medo, este querer que qualquer uma dessas pessoas acenda a sua Luz, quando tu não estás disposto a permitir que a tua própria Luz se acenda? Como é podes querer ver, ajudar e fazer algo por qualquer uma dessas pessoas, se não estás disposto a ver-TE? A ajudar-TE? A fazer por TI?

É por isto que, quando envolto na escuridão, com a certeza de que contigo estão Todos, acende primeiro a tua Luz. Aliás, acesa ela já está. Sempre esteve. Talvez esteja coberta pelo pó acumulado dos anos ou escondida debaixo de um valente bloco de betão. Enfim, só tu sabes como tens vindo a impedir essa Luz de brilhar no Mundo. E, no fundo, também sabes que sacudir esse pó ou quebrar esse bloco vai levantar poeira.

Se o fizeres, durante algum tempo vai-te custar respirar, não nego. Mas a poeira acabará por assentar. O ar voltará a ficar respirável e, quando isso acontecer, há mais espaço para essa tua Luz poder circular e viajar do teu centro para o centro de tudo.

Portanto, toma Coragem. Sacode o pó. Fragmenta esse enorme bloqueio que trazes no peito e deixa-te surpreender pelo vislumbre, daqueles que são apenas alguns flashes, de toda a Luz que trazes dentro. De toda a Luz que ÉS. Permite que ela irradie, mais e mais, a partir do teu coração e que, aos poucos, comece a iluminar tudo e todos à tua volta.

Quem nós somos influencia diretamente a vida das pessoas que convivem connosco. A nossa convivência influencia. A nossa convivência transforma, por isso, é sempre por nós que fazemos o que fazemos. E, ao ser por nós, acaba por ser PARA os outros.

“Podemos mudar o mundo. Não pelo que dizemos ou fazemos, mas como consequência daquilo em que nos tornamos.”

Dr. David R. Hawkins, Deixa Ir

Neste Mundo do Tudo Eu deixa que a tua Luz brilhe primeiro, para que, ao ver o brilho da tua Luz, outros possam ver a Luz que também são.

Pela Coragem de escolher o Caminho do Amor, com leveza.

Susana Martinho