(A)Deus

Por estes dias cruzei-me com uma frase. Duas, para ser mais precisa. Facto que, por si só, nada tem de surpreendente nem de novo. Afinal, num só dia, todos nós nos cruzamos com incontáveis frases ou expressões.

Estava escrita em inglês. Ok, também não é motivo para grande espanto.

Era formada por dez palavras. Apenas dez. Um número que se mantém muito igual a si próprio após a devida tradução para português. E, mesmo assim, foi inevitável. No momento em que li tão breve conjunto de palavras, uma sensação de reverberar trespassante arrebatou-me. Poder-se-ia dizer que foi algo muito semelhante ao que se sente num ápice de epifania, contudo, não se tratou de um momento em que eu estivesse a apreender, de forma inesperada, o significado de uma qualquer coisa. Foi mais um entusiasmo que se avivou na constatação de se poder definir, de modo tão singelo, aquilo que é largamente considerado como uma grande e abstrata ideia:

“Deus é uma frequência que existe dentro de ti. Sintoniza.”

(God is a frequency that exists within you. Tune in.)

E embora, não só neste texto mas também no meu dia-a-dia, eu me sinta um pouco reticente na utilização desta palavra – Deus –, pela noção dos muitos significados que lhe são atribuídos, alguns dos quais um tanto ou quanto pejorativos, mesmo assim, fascina-me que a grandeza possa ser explicada de modo tão simples, tão lúcido, tão “pequeno” e nem por isso perder a sua imensidão.

Também não é minha intenção introduzir aqui qualquer teor religioso. O “Deus” julgador, punitivo, que atribui mais valor ao ser humano pela sua capacidade de sofrer e de se sacrificar, constituiu uma parte considerável dos ensinamentos que me foram transmitidos (e provavelmente a ti também) nos meus primeiros anos de vida. Porém, no meu íntimo, sempre que me deparava com eles, ocorria uma clara divisão. Se, por um lado, uma parte minha sentia curiosidade e interesse em tentar perceber melhor esse “Deus”, que me era dado a conhecer através das perspetivas das pessoas que me eram mais próximas, por outro lado, havia uma parte minha que sentia uma ausência de bom senso num Criador que, por nos querer tanto bem, castigava a sua própria criação caso ela não se comportasse em conformidade com as suas imperiosidades. Por outro lado ainda, sempre me senti seduzida por aquilo que os meus sentidos conseguem capturar e interpretar de toda esta imensa Criação, na qual, ao mesmo tempo, somos seres inseridos e integrantes. Um apelo que acredito ser comum a todos nós. Não deve haver um ser-humano que, de algum modo, não sinta em si um fascínio inato pelo mistério que é este incrível sistema que chamamos de Universo. E é este, aliás, o termo que gosto de utilizar: Universo.

Um sistema que, quanto mais atentamos nele, mais nos é difícil não o considerar como vasto, em expansão, enérgico, em movimento, inteligente, consciente… vivo, entre tantas outras qualidades que aqui poderiam ser enumeradas. Creio que nos é praticamente impossível observar o que nos rodeia e não considerar que, algures no tempo, ocorreu um momento de criação. E tenha sido ele um Big-Bang ou não, facto que também não é relevante pois, ao contrário do que por vezes consideramos, o entendimento de um passado tão longínquo não é assim tão determinante para a forma como podemos avançar no futuro, o certo é que, reconhecer a existência de um momento de criação, envolve o reconhecimento da existência de um criador.

E do mesmo modo que não nos é relevante a construção daquilo que seria apenas mera uma imagem do momento da criação, também não nos é necessário debatermo-nos com o entendimento de como terá sido – e seja – esse criador.

Criação e Criador acabam por se fundir numa mesma entidade. Universo, chamamos-lhe, mas, tal como muitos também designam, pode perfeitamente chamar-se de Deus. Irrisória questão de nomenclatura para essa energia que te corre no Ser. De que importa o nome, quando pulsa, em cada célula tua, a mesma energia que cria estrelas, rios, mares, montanhas, criaturas e vegetação de toda a espécie, planetas, galáxias… mundos.

És feito – tudo em ti – dessa poderosa energia que cria mundos. Ela não está só em todo o Universo exterior que te envolve. Ela também habita, palpita, expande, vive… em ti. Por isso, e como tudo o que é energia vibra e como tudo o que vibra tem uma frequência, pode-se afirmar que sim, que Deus (o Universo, a Fonte ou outro nome qualquer que lhe queiras atribuir) é uma frequência que existe dentro de TI.

E, nem por acaso, deparei-me com esta frase a poucos dias do final de 2020. Um ano que, sem dúvida alguma e independentemente dos motivos, marca a história de cada um de nós. Um ano em que muita desta energia, que não só te rodeia mas também vive em ti, foi fortemente impulsionada e está num fluxo de movimento crescente. Um ano em que, tenhas ou não noção, tornaste-te mais. Maior. E é por tudo isto que, no momento do Adeus, agora, talvez mais do que nunca – e aproveitando o trocadilho que surge aqui facilmente – valha a pena lembrares-te de ir em direção a Deus. Afinal, tu tens esse poder em ti. Tu ÉS parte desse poder.

Sintoniza. Sintoniza em ti. Sintoniza-TE.

E depois, com confiança, segue em frente para 2021.

Votos de um bom ano.

Pela (re)conexão com o Amor que És, com leveza.

Susana Martinho

Fotografia de Joel Santos:

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